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HISTÓRIAS DE UM JORNALISTA
 


O Bêbado e o Santo

 

Era madrugada. A brisa, suavemente, anunciava o amanhecer.  A convite do garçom, fui obrigado a deixar o local onde solitariamente eu bebia. Antes de sair pedi uma garrafa. Acho que era de vinho, não lembro muito bem. Alguns casais ainda se amavam na beira do cais, uns mais audaciosos que os outros.

A maré estava seca. De repente olhei em direção ao rio e observei um vulto distante. O álcool me impediu um raciocínio lógico. Na minha utopia eu acreditava que se tratava de um bêbado, tão solitário quanto eu, que também procurava uma companhia para falar de seus lamentos.

Logo me vi caminhado em direção ao vulto. A lua ofuscou meus olhos e a embriagues não me permitiu ver claramente o meu suposto amigo. Apresentei-me. Mas logo vi que se tratava de um homem calmo que preferia o silêncio às palavras. Comecei então a travar o meu interminável monólogo. Pela primeira vez não fui interrompido. Finalmente havia encontrado alguém, ainda que desconhecido, para desabafar. Entre um gole e outro, narrei para aquele homem todos os detalhes dos meus vinte e dois anos de existência.

Os viajantes, ancorados no velho trapiche, olhavam assoberbados àquela cena.

Os raios do sol já apareciam tímidos no horizonte. Ainda embriagado me despedi daquele homem calado e sereno. Saí cambaleando pelas ruas tortas da cidade, vasculhei meus bolsos e encontrei algumas moedas, suficientes para entrar no coletivo e ir para casa.

Alguns dias depois voltei ao local da embriagues, agora lúcido, e observei que naquela noite, durante longas horas, São José foi meu companheiro. Justamente naquela noite que eu havia desistido de viver, encontrei, na minha utopia, um amigo que apenas me ouvia, mas que no seu silêncio me deu o consolo que eu precisava. Depois desta noite eu decidi viver mais um pouco. Para falar a verdade, até quando Deus quiser. Hoje constantemente nos encontramos para conversar, às vezes lúcidos, às vezes embriagados. Ele não me censura, apenas fica me ouvindo e juntos ficamos olhando o rio-mar.



Escrito por Paulo Ronaldo às 14h38
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