VIADIALDO E O FORTE TUCUJU
(Crônica III)
Novamente a cúpula da Fundação Tucuju se reuniu para solucionar mais um problema causado por Viadinho. “Onde foi que erramos?”, se indagavam os diretores.
- Desta vez vou acertar - disse o presidente - ele será diretor do Forte Tucuju, lá ele não poderá fazer nada de anormal.
Quando foi comunicado, Viadialdo abriu seus grandes olhos e deu um sorriso maroto. Sinal de projetos à vista. No entanto, de acordo com os outros diretores, não havia nenhum perigo. Todas as verbas foram cortadas e, sem dinheiro, a única coisa que Viadinho poderia fazer era vigiar o forte.
Durante dois anos, Viadialdo não fez nada de anormal, apenas economizou salário após salário. Ninguém podia imaginar o que aquela mente utópica tramava.
Viadinho usou sua influência junto a alguns psicólogos e conseguiu, de alguma forma, recrutar alguns pacientes da psiquiatria.
Tudo foi feito às escondidas. Os “recrutas”, como Viadinho os chamava, começaram a recuperar os velhos canhões, desativados há mais de um século.
Tudo estava pronto. Com a economia dos salários, Viadinho comprou pólvora e balas para os canhões. Deu um sorriso que só os loucos sabem dar. A trama estava completa.
Viadinho chamou seus recrutas e lhes disse: “estamos em guerra. Precisamos proteger o castelo dos loucos, pois a cidade Tucuju está cheia deles”. (continua...)
Escrito por Paulo Ronaldo às 09h16
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A partir desse dia, navegar pelo rio Tucujuzinho era um perigo. Na verdade uma tarefa quase impossível. Viadinho naufragava todos os barcos e navios que se aventuravam por aquelas águas. “São inimigos”, dizia ele. “Atacar!”.
As autoridades, logo que souberam, tomaram as devidas providências. Mas as negociações não andavam e qualquer tentativa de paz era em vão. “Todos são inimigos”, afirmava Viadialdo.
O Exército foi acionado, mas Viadinho não se amedrontou e passou a combater as Forças Armadas. A missão, muito delicada. Era preciso invadir o forte, prender Viadinho, sem causar nenhum dano ao monumento que já havia sido tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional.
O único problema era justamente a tática de defesa e ataque utilizada por Viadialdo, digna das mentes mais brilhantes. Duas semanas depois de ter declarado guerra, a munição do “ castelo” acabou. Desesperado, Viadinho começou a atirar pedras nos soldados que escalavam o forte. Não havia como lutar. No desespero, o rapaz parodiou Tiradentes: “Viva a inconfidência Tucuju”.
Finalmente, após horas de negociações, Viadialdo se entregou sem oferecer nenhuma resistência, além da mordida na mão de um dos soldados. Na manhã seguinte, o escândalo foi para as manchetes do Jornal Diário Tucuju
“Viadinho cumprirá pena em manicômio”.
Sua mãe apenas lamentava a falta de aptidão do filho.
- Bem que eu avisei para esse menino - dizia ela - que a cultura ainda ia enlouquecê-lo. Vender picolé é tão mais simples. Mas ele não me ouve.
Escrito por Paulo Ronaldo às 09h16
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Viadialdo e os Bacabeirinhos (Crônica II)
Após o triste episódio ocorrido na muralha do grande Forte, Viadialdo caiu em profunda depressão. Durante o dia o pobre rapaz trancava-se em sua pequena sala, na Fundação Tucuju, e ficava despachando, sem receber ninguém. Às vezes abria sua velha maleta e lia e relia seus vários projetos, sem entender o porquê de não serem aprovados. Dizia para si mesmo:
- Eles não entendem o progresso. Tucuju ficaria famosa se realizasse um Festival de Rock na Lua. Seríamos os primeiros, ora bolas.
A tristeza de Viadialdo começou a ficar visível. O rapaz não se alimentava e quase não falava com ninguém. Sua mãe, uma senhora de 65 anos, alertava o filho.
- Viadialdo, sai dessa fundação, meu filho, isso é coisa demais para sua cabeça.
A mãe, os raros amigos, todos o aconselhavam, mas era em vão. Viadinho, como era apelidado pelos amigos - pouco mais de dois - permanecia firme em suas idéias. Não abria mão de nenhum projeto. Dizia que eles o tornariam conhecido no mundo inteiro. Já imaginava uma estátua em sua homenagem, por ser o primeiro a realizar um evento fora da Terra.
Na Fundação Tucuju, todos se mostravam preocupados com a sandice do pobre rapaz. Porém, sabiam que afastá-lo do cargo de diretor culturalíssimo seria o mesmo que apunhalá-lo no peito. Todos sabiam que se isso acontecesse seria o fim de Viadinho. Mesmo sendo louco, todos o amavam e por isso mesmo procuraram um meio de afastá-lo de projetos tão utopiantes.
- Vamos dar outro cargo a ele - disse um dos vários diretores daquela fundação.
- Mas qual?- disse o outro, que nem mesmo sabia o cargo que exercia. Era diretor, mas não sabia de que. (continua...)
Escrito por Paulo Ronaldo às 14h15
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- Tem de ser um cargo que o afaste definitivamente desses projetos - lembrou outro, que não era diretor, mais sim um Aspone (Assessor para Assuntos de Porra Nenhuma).
- Ele será diretor do Teatro Tucuju, lá ele não pode desenvolver tais projetos - disse o presidente, depois de horas pensando.
Viadialdo recebeu a notícia com muita felicidade. Dizia que este sempre foi seu sonho e blá, blá, blá. O objetivo foi atingido. Viadinho pegou sua pequena maleta e queimou todos os projetos. Enquanto os incinerava, seus olhos grandes brilhavam. Dentro de sua cabeça, mil coisas passavam ao mesmo tempo. Ninguém acreditava no que estava vendo. Aparentemente,
Viadinho estava lúcido e não falava mais em projetos. No primeiro mês, ninguém pôde negar, Viadinho administrou o Teatro Tucuju com muita seriedade. Um dia, porém, observando as bacabeiras e um pequeno lago em torno do teatro, Viadialdo teve mais uma das suas mirabolantes idéias.
- Eureca! Fui iluminado pelos deuses mais uma vez.
Disse isso e saiu correndo em direção à sua sala. Duas horas depois chamou todos os funcionários do teatro e lhes mostrou o projeto Bacabeirinhos.
Viadinho explicou que o projeto Bacabeirinhos consistia em transformar a área alagada em uma piscina, e em seguida recrutaria garotos de 12 a 14 anos, os “bacabeirinhos”, para prepará-los para as olimpíadas de 2016.
- Vejam a grandeza desse projeto, seremos o primeiro teatro do mundo a mandar uma equipe de natação para as olimpíadas. Isso não é fabuloso? Era impossível falar para aquela infeliz criatura que aquilo era a maior de todas as sandices já citadas. Quando um funcionário tentou falar, Viadialdo disse que o projeto era muito mais amplo do que todos imaginavam. (continua...)
Escrito por Paulo Ronaldo às 14h15
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- Existem salas demais neste teatro. Não ocupamos todas elas. Para que não fiquem ociosas, nós vamos alugá-las. Ah! Eu ia esquecendo, na área principal do teatro, durante a semana, irá funcionar um bacabelógromo. Assim os camelôs terão mais um espaço para vender seus produtos - e continuava a explicar.
Viadialdo estava empolgadíssimo com a narrativa. A surpresa dos funcionários veio apenas fortalecer sua utopia.
- Estão vendo? - dizia ele. - Nós vamos expandir o que se entender por teatro no mundo e blá, blá, blá...
O presidente da Fundação, ao ser comunicado, logo tentou fazer com que Viadinho desistisse de seu projeto. Convencê-lo foi uma tarefa quase impossível, mas como louco com louco se entendem. Depois de 72 horas de conversa o presidente conseguiu mudar a opinião do rapaz. Na semana seguinte, quando tudo parecia ir bem, parou um caminhão e descarregou várias toras de madeiras. Um funcionário avisou Viadialdo do engano do motorista.
-Não, meu rapaz, não é engano, está tudo sobre controle. Amanhã vamos inaugurar aqui no teatro a Serraria Tucuju.
Escrito por Paulo Ronaldo às 14h15
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